
O setor alimentício, apostam dirigentes públicos e privados, vai ser o último a ser atingido pela crise mundial, se for atingido. Com isso, também avaliam que algumas simples precauções já podem evitar que enfrentem problemas como muitos segmentos já estão passando. “Não é preciso entrar em polvorosa. O momento é de cautela, apenas, e de reprogramar algumas projeções”, garante o presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar), Domingos Martins.
Entre essas projeções, a Central de Informações Avícolas, vinculada à União Brasileira de Avicultura, sugere uma redução em 5% no ritmo de produção. “Hoje o mercado está instável em todos os setores, ocasionando redução brusca na oferta de dinheiro. Para a avicultura, o mercado tem se sustentado, mas razoavelmente ofertado. No primeiro semestre tivemos uma desvalorização do dólar e a exportação era intensa, enquanto o mercado interno ficou mais morno. Agora, se inverte um pouco. Apesar do panorama, as exportações devem continuar, talvez em ritmo menos intenso, mas com preços mais valorizados em dólar”, pondera Domingos Martins.
Martins avalia que 2008 tem sido um ano muito bom para a avicultura. “O nosso produto é bastante competitivo, se comparado a outros países e outros tipos de carnes, e ganhou muitos mercados. Assim, apresenta como uma ótima opção em tempo de contenção”, explica. Neste ano, segue o dirigente, o setor também tem a seu favor que está preparado com suporte de estoque de milho, um dos principais insumos para produção. “Não estamos afirmando que a crise mundial não pode nos atingir, mas é possível afirmar que podemos superá-la com tranqüilidade. O setor da avicultura é muito bem estruturado e administrado, desde as cooperativas até empresas privadas. Hoje, todo o ciclo está bem organizado e fortalecido”, tranqüiliza.
Cuidados
Apesar da tranqüilidade, Domingos Martins reconhece que a redução no ritmo de produção deve se refletir principalmente no primeiro trimestre de 2009, meses que historicamente contam com volumes menores de vendas. “Reafirmo que esse reflexo não será traumático, a medida que temos um ótimo produto, especialmente no Paraná. Nossa qualidade e competitividade nos dá maiores seguranças”, avalia.
Além disso, no período é inverno no Hemisfério Norte, o que provoca diminuição no ritmo das exportações, já que as geleiras dificultam a entrada de mercadorias em diversos países. Uma das apostas do setor avícola para superar o período de crise é o crescimento no consumo interno, superando a tradicional liderança da carne bovina.
A previsão é que em 2009 o segmento avícola produza em torno de 1,1 milhão de toneladas de frango de corte por mês, exportando em média 365 mil toneladas e destinando ao mercado interno uma média mensal de 600 mil toneladas.
Melhor
Martins informa que a redução em 5% da produção de frango já deve promover uma equação necessária. Ele lembra que o Brasil atingiu em 2008 o maior número de alojamento de frango de toda a história, atingindo a marca de 488 milhões de cabeças alojadas. Se esse ritmo de crescimento se mantiver, a probabilidade de sobrar frango no mercado é muito grande. A estimativa seria de chegar em 2009 com uma capacidade de produção de carne de frango 15% maior que neste ano e 25% maior que em 2007. “Com esses indicadores, a previsão é de que 12% da produção de frango de corte brasileiro mensal fique excedente, algo em torno a 135 mil toneladas. Por isso a importância em se planejar uma redução no ritmo de produção, para que a oferta não seja muito superior à demanda interna e externa”, alerta Domingos Martins.
Mesmo assim, o presidente do Sindiavipar garante que o avicultor pode permanecer tranqüilo. “A nossa maior preocupação no momento é com a escassez de crédito. Estamos trabalhando para haver mais crédito no setor. Porque isso sim é o mais preocupante no momento. No mais, basta ter cautela e organização”, sentencia.
Repensar
O diretor presidente da Coopavel, de Cascavel, Dilvo Grolli, reforça a afirmação que o setor alimentício é o que vai sofrer menos impacto com a crise mundial e que a estrutura da avicultura brasileira e, especialmente, paranaense, garante certa estabilidade ao segmento.
Ele cita que a crise não aponta somente pontos negativos. É o caso do milho, produto básico para alimentação das aves, cuja cotação acaba caindo. Se antes havia mais exportação, o dólar estava em baixa. Agora, quem exporta, cosegue melhores valores em dólar, apesar da perspectiva de exportar seja menor. “Ou seja, de certa forma, há uma compensação que também favorece a avicultura, que no Brasil e principalmente no Paraná, tem produtos bastante competitivos em qualidade e preço”, acrescenta Grolli.
Para 2009, aponta Grolli, além da redução no ritmo de produção, o que deve acontecer é que o setor pouco ou nada fará em investimentos substanciais, além de ações visando estruturação interna das indústrias e cooperativas. “Se havia previsão de crescimento, agora podemos afirmar que, do jeito que o mercado está se apresentando, o setor deve apenas manter a sua atual conjuntura”, pondera.
Quanto ao avicultor, que está na ponta da cadeia, Dilvo Grolli aconselha a manter tranqüilidade e seguir as orientações da sua integradora. “Não podemos prever como o mercado vai estar em um ano, pois essa crise não é isolada, atinge o mundo inteiro. Mas, por enquanto basta o produtor se concentrar na safra, evitar investimentos em maquinários e aguardar”, diz.
Competitividade
O assessor da diretoria do Grupo Diplomata, Caio Gottlieb, reforça o coro que diz haver tranqüilidade para a avicultura. “Toda exportação está retraída. Contudo, alimento é item essencial e o frango hoje ganha muito espaço, se comparado à carne suína e bovina, porque o setor evoluiu muito, tem produtos e preços bastante competitivos, o que num momento de crise pode ser fundamental para se manter”, expõe. Na sua opinião, mercados que vêm sendo conquistados pela avicultura brasileira, como a Ásia e Oriente Médio, devem continuar sendo potenciais compradores do produto brasileiro.
O Grupo Diplomata, informa Gottlieb, é bastante realista e está reavaliando seus estudos de investimentos para 2009. Ele acredita que o ano será para melhorias nas unidades de produção e de investimentos internos, mais na capacidade tecnológica de produção. “Por enquanto é possível assegurar que há tranqüilidade. O setor pode não crescer com o atual panorama, mas também não há perdas previstas”, diz.
De outro lado, o assessor lembra que neste ano o setor superou um grande problema sempre verificado nessa época: a falta de milho. “Estamos com um estoque de passagem muito bom. Então, há também aspectos positivos a serem considerados. Por isso, o momento apenas pede calma e trabalho planejado”, finaliza.
Paraná é líder de produção
Não fosse a crise mundial, o Paraná tinha grandes expectativas de se tornar o líder de exportação de carne de frango do Brasil, já que hoje é o principal produtor. O setor avícola do Estado deve sofrer impactos com a medida de reduzir em 5% a produção de frango de corte. Segundo dados do Sindiavipar, no acumulado janeiro-setembro, o segmento já abateu 907.772.170 cabeças de frango no Estado, desempenho 10,3% superior ao mesmo período do ano passado, quando haviam sido abatidas 823.075.732 cabeças.
A estimativa inicial do Sindiavipar era de manter durante todo o ano um ritmo de produção crescente, fechando o ano com um crescimento de 12% a 15% comparado a 2007.
Abef tranqüiiza
A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos (ABEF), emitiu no dia 27 de outubro nota informando que as exportações de carne de frango do Brasil estão sendo comercializadas normalmente, seja para o Japão ou qualquer outro dos mais de 100 mercados de exportação do frango brasileiro.
Segundo a nota, não houve revisão de contratos ou renegociação para os países importadores de carne de frango; e os negócios transcorrem sem qualquer alteração.
Fonte: O Presente Rural
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