
A laminite, doença relacionada aos aprumos, tem grande importância na bovinocultura leiteira em função de seu alto impacto, tanto na produtividade como no bem estar dessa categoria de animais. Estimativas de custo colocam a mastite, os problemas reprodutivos e a laminite no topo das doenças de maior impacto econômico do gado leiteiro. Tem sido dada muita ênfase em genética, nutrição, instalações, prevenção/tratamento e manejo, na tentativa de diminuir a freqüência dos casos de laminite nos bovinos. Tanto produtores quanto veterinários também têm sido treinados, no sentido de reconhecerem os sintomas da laminite e de terem consciência da importância da sua identificação.
Por outro lado, a suinocultura vem dando pouca importância à laminite, a ponto de diminuir as pesquisas sobre o manejo e a prevenção da mesma em porcas. Nós gostaríamos de argumentar que o efeito da laminite na reprodução dos rebanhos suínos tem sido subestimado e que muitas das conseqüências comuns no gado de leite, teriam possivelmente o mesmo impacto na suinocultura. Esse artigo contempla uma visão geral sobre a anatomia, a distribuição, os efeitos, a avaliação das variáveis e a prevenção/tratamento da laminite no gado leiteiro, comparativamente com a avaliação da magnitude e a interpretação da laminite nos suínos.
Anatomia
A anatomia dos aprumos (ou patas) de bovinos e suínos é bastante similar, embora haja diferenças no grau de susceptibilidade a certas lesões. Cada aprumo é composto por quatro dedos. Em cada aprumo, dois dedos (anteriores) são responsáveis por sustentar o peso do animal, enquanto os outros dois (posteriores), não têm a ver com o processo de sustentação, sendo normalmente considerados vestigiais. Os suínos têm unhas consideravelmente desenvolvidas sobre os dedos vestigiais, em comparação aos bovinos. Cada aprumo tem também três superfícies que, em conjunto, compõem a unha: parede, solado e calcanhar. As duas superfícies que têm contato com o solo são o solado e o calcanhar. Nos bovinos essas duas estruturas não estão claramente separadas, mas nos suínos sim. O solado do aprumo dos suínos tem uma área consideravelmente menor e o calcanhar é muito mais proeminente. Essas diferenças predispõem os suínos a certos problemas, como o crescimento excessivo dos dedos vestigiais, rachaduras no solado e fissuras no calcanhar, os quais não costumam ser prevalentes em bovinos leiteiros. Ilustrações sobre a anatomia de aprumos de bovinos são muito mais numerosas e de fácil acesso, comparado às de suínos que são muito mais raras.
Distribuição
No caso de gado leiteiro, as doenças dos cascos não têm sido tratadas de modo superficial, havendo sim um amplo reconhecimento da sua importância. Um estudo conduzido no Estado de Nova York revelou que em 48% de um total de 2.520 vacas observadas, havia sido diagnosticado algum tipo de dificuldade de movimentação, durante certo período de observação. Um estudo realizado em 4.899 novilhas e vacas leiteiras, na Suécia, revelou que 72% das mesmas tinham, ao menos, uma lesão de casco. Resultados de um levantamento realizado pelo Sistema Nacional de Monitoria Sanitária Animal revelou que 15% de toda a refugagem em vacas leiteiras era, primariamente, devida a laminites ou a traumatismos nos cascos. De acordo com esse relatório, entre os fatores associados com a refugagem involuntária, apenas problemas reprodutivos (26,7%), problemas no úbere e mastites (26,5%) foram citados mais freqüentemente como razões para o descarte.
As lesões nos cascos são classificadas em várias categorias e constituem as causas mais comuns da laminite no gado leiteiro. Entre as principais doenças/lesões de cascos em bovinos estão a podridão dos cascos, as laminites, os abscessos e úlceras do solado, doença da linha branca, rachaduras e as verrugas.
A laminite em porcas também resulta no decréscimo do seu bem estar e em perdas econômicas. Lesões de cascos em porcas são tidas como conseqüências da qualidade do piso, nutrição, hereditariedade e manejo. Os tipos mais comuns de lesões são as de calcanhar, rachaduras entre as junções dos calcanhares com os dedos, rachaduras na linha branca e na parede dos cascos. Estudos preliminares indicam que de 6 a 35% das porcas são refugadas em função da laminite7. Um estudo realizado no Southern Research da Universidade de Minnesota e no Centro Outreach, em Waseca, Minnesota, encontrou apenas 3,8% das 184 porcas estudadas, sem nenhuma lesão de aprumos8. Lesões de casco parecem ser freqüentes e problemáticas, tanto em vacas leiteiras quanto em porcas. Então, as lesões podem ser de vários tipos, em ambas as espécies.
Produção e efeitos econômicos
A laminite não causa apenas desconforto nas vacas, mas afeta também a produção de leite e os parâmetros econômicos. Dados coletados em duas fazendas leiteiras no Estado de Nova York, durante um ano e meio, demonstraram que após uma vaca ter sido identificada como positiva para alguma doença dessa categoria, a produção de leite cai uma média de 2,6 kg/dia. A produção de leite diminui ainda mais se essas vacas estiverem em sua segunda (ou mais avançada) lactação, após o diagnóstico positivo para a laminite. Um estudo conduzido na Holanda, envolvendo 2.183 vacas e 6 273 lactações mostrou evidências de que as porcentagens de gordura e proteína do leite também são afetadas pela laminite. As vacas que eram refugadas por causa da laminite tiveram a sua produção de leite e os seus níveis lácteos de gordura e proteína consideravelmente afetados. Nessas vacas a produção leiteira caiu em 11,3%; o nível de gordura no leite em 14,1% e o nível de proteína no leite em 16,4%.
A perda financeira total foi estimada em NLG 230,00 (US$ 134,00), em média, por vaca afetada10. Trata-se de um valor similar ao atribuído pelo Estado da Pensilvânia às perdas por laminites (US$ 90,00 a US$ 100,00 por caso). A laminite não afeta apenas a produção leiteira, mas baixa também o desempenho reprodutivo, aumentando os índices de refugagem e os custos com mão-de-obra.
Na indústria leiteira a eficiência reprodutiva é um elemento crítico de perdas. No estudo holandês mencionado, o intervalo entre partos das vacas afetadas aumentou em 8,9 dias quando comparado ao das vacas não afetadas pela laminite. Outro estudo conduzido na Flórida também demonstrou que vacas com laminite tiveram intervalos entre partos e concepção mais longos, comparativamente a vacas saudáveis. Também tem sido demonstrada a associação das laminites a desordens metabólicas, retenção de placenta e problemas ginecológicos.
Perdas em suínos
Laminites em porcas também causam perdas econômicas e problemas relacionados ao bem estar animal. Elas provocam episódios dolorosos, podem reduzir a eficiência reprodutiva e podem levar à refugagem precoce, resultando em perdas na produção. Porcas refugadas devido a problemas de aprumos são removidas do plantel mais precocemente do que aquelas refugadas por outras causas. Refugagem precoce implica em redução no tamanho das leitegadas, do número de leitegadas/porca/ano e do número de leitões desmamados/porca/ano. Todas essas perdas implicam no aumento do custo por leitão desmamado. Uma avaliação realizada em 7.973 fêmeas, através dos dados do sistema PigChamp® revelou que problemas locomotores foram a causa de 13% das remoções de porcas do plantel. Dessas remoções, 55% eram fêmeas de zero a dois partos. A quantidade relativamente esparsa de informação disponível sugere que, um decréscimo no número de porcas refugadas por laminite poderia surtir efeitos positivos na produção, como um todo.
Outros dados demonstram que a ingestão inadequada de ração durante a lactação está associada com a remoção da porca do plantel. Porcas com níveis de ingestão de ração de lactação inferiores a 3,5 kg terão, em algum dia durante as primeiras duas semanas do período de lactação, maior probabilidade de serem removidas do que porcas com níveis de ingestão de ração de lactação superiores a 3,5 kg. Porcas com nenhuma ingestão de ração, durante algum dia das primeiras duas semanas do período de lactação terão uma probabilidade 2,36 vezes maior de serem removidas do plantel, comparado a porcas com ingestão de ração > zero, durante algum dia das primeiras duas semanas do período de lactação.
Laminite, tanto em vacas leiteiras quanto em porcas, implica em decréscimo na produtividade e em perdas econômicas. Trata-se de observações bem estudadas e documentadas, no caso de gado leiteiro, o que é em parte responsável pela quantidade crescente de normas de prevenção estabelecidas para o problema, nessa categoria.
Avaliação
O ponto crucial na laminite em gado leiteiro é a identificação do problema. Essa identificação pode ser feita mais facilmente através do índice de locomoção, uma medida qualitativa da habilidade das vacas em caminhar normalmente. Trata-se de uma avaliação visual, onde as vacas são classificadas numa escala que varia de 01 a 05. O índice 01 é atribuído a um animal que tenha uma marcha normal e que levante e caminhe impulsionado pelos membros posteriores. Na outra ponta da classificação, o índice 05 é atribuído a um animal relutante ou incapaz de se manter apoiado em um ou mais membros. Avaliar o índice de locomoção toma poucos segundos por vaca e complementa o processo geral de avaliação, fornecendo uma estimativa do estado geral da saúde dos aprumos do rebanho.
A identificação da laminite é também crucial, no caso dos suínos. Embora não se disponha dos mesmos sistemas de avaliação específicos tão largamente usados no gado leiteiro, Main e colaboradores (2000) estabeleceram um tipo de classificação que utiliza uma escala de seis índices, atribuídos às porcas no momento da sua transferência para o setor de gestação. Esse sistema baseia-se no comportamento do animal, na sua postura em descanso e na sua marcha. Os índices variam de zero (BAR, mantém o equilíbrio, caminha normalmente) a 05 (insensível, não fica em pé, não se movimenta). Esse sistema, ou algum outro equivalente, poderia ser usado para uma avaliação geral do nível de laminites do plantel.
Prevenção/tratamento
Uma vez que a laminite é reconhecida como problema na indústria leiteira, as opções para a sua prevenção e tratamento são numerosas e bem exploradas. Essas opções incluem nutrição, genética, instalações e manejo.
É necessário um balanço apropriado de vitaminas e minerais para o desenvolvimento dos cascos. A queratinização da epiderme do casco é uma função que depende da disponibilidade de muitos nutrientes, entre eles as vitaminas, os minerais e os elementos-traço. Isso sugere que o desenvolvimento normal das unhas, chifres e a formação adequada da queratina estejam ligados à disponibilidade desses nutrientes. Ca, Zn, Cu, Mn e vitaminas A, D e E, assim como a biotina, têm cada um a sua função na produção e manutenção de tecidos queratinizados saudáveis.
A prevenção e o manejo são estratégias essenciais para a redução da laminite em porcas. A seleção das porcas também deve ser considerada, em função da identificação de marrãs bem estruturadas, com boa musculatura e bom desenvolvimento esquelético.
A suplementação de biotina em porcas tem sido apontada como um fator redutor das lesões de casco, quando se compara lotes suplementados com lotes controle. Outro estudo demonstra que uma dieta sem a quantidade usual de biotina resulta no desenvolvimento de lesões nas patas.
Condições adversas de instalação também provocam laminite em porcas. Um piso de concreto abrasivo predispõe a porca a rachaduras e lesões nos cascos. Da mesma forma que a umidade constante no piso promove um ambiente favorável ao crescimento de bactérias, ela também mantém os cascos úmidos, amolecidos e doloridos. Pisos de concreto também podem causar laminite, se a porca estiver confinada. O manejo freqüente de aparar os cascos é também uma forma de prevenção da laminite. Algumas porcas necessitam de intervenção em seus aprumos para evitar que os cascos cresçam demais e para manter a sua estrutura normal.
Conclusão
Laminite, tanto em gado de leite como em suínos, é um problema generalizado, que traz conseqüências econômicas e que também coloca em risco o bem estar dos animais. A prevenção e o tratamento da laminite no gado leiteiro consistem na manutenção de um foco extensivo nas áreas de reprodução, nutrição, cuidados com os cascos e sistemas de alojamento. A prevenção do problema em gado de leite está apoiada em numerosos estudos, os quais revelam a extensão das perdas econômicas devido às laminites.
A prevenção da laminite em porcas tem sido feita através de foco no desenvolvimento de marrãs, nutrição, instalações e manejo, sendo a maior parte desses relatos baseados no empirismo. Não existem estudos prospectivos relacionados aos efeitos das lesões de laminite, de modo que as medidas desses efeitos, tanto em termos e produtividade como de economia, não estão disponíveis.
Os efeitos negativos da laminite em gado leiteiro, aparentemente podem ser replicados em porcas. Entretanto, a falta de estudos e pesquisa relativos à laminite em porcas tem retardado o reconhecimento do problema.
Como acontece no caso do gado leiteiro, o reconhecimento dos efeitos negativos devidos à laminite poderia criar foco e enfatizar a prevenção e o tratamento da mesma.
Pesquisas relativas à laminite em porcas e seus efeitos são necessárias para que se faça uma avaliação das medidas de prevenção e tratamento.
* Allerson¹, BS; J. Deen¹, DVM, MS, PhD;
T.L.Ward², BS, MS, PhD
¹ University of Minnesota, College of
Veterinary Medicine, St. Paul
² Zinpro Corporation, Eden Prairie, Minnesota
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Colaboração: Pedro Tomasi
Fonte: O Presente Rural
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